Encanta-me seguir o voo das aves e conversar com elas. Interpreto nos seus voos, nas suas pausas e nos seus sons sinais de comunicação comigo.
Trazem-me sempre notícias de encontro aos meus pensamentos e aos meus sentires. Os melros e as pêgas são aquelas aves com as quais maisvezes me sintonizo, apesar de que por vezes sinto que passam palavra para outras espécies, para que a mensagem seja sempre entregue, independente do sítio onde me encontre.
Lembro-me bem de um conjunto de corvos saltitantes, numa dança em jeito de despedida, no meio de uma estrada que percorria aquando do meu regresso a casa de Hamburgo, mostrarem-me que eu não estava
sozinha naquele momento de desafio emocional. Ou, de um bando de aves marinhas que me felicitou com o bailado mais belo e delicado que alguma vez assisti, ao longo do rio Couesnon, tendo como pano de
fundo o Mont Saint Michel, numa tarde de inverno, durante a viagem de lua de mel.
Muitos outros momentos poderia descrever, na certeza de que muitos outros ainda terei para relatar.
Emocionam-me as aves e os seus sussuros.
Falar de aves e da sua linguagem subtil num espaço sobre o desenho tem lugar para vos falar um pouco mais de valores, crenças, observações, ilusões e criações que constroem quem sou.
Trago em mim a ideia que todos os seres que nos rodeiam têm algo a nos dizer, bem como cada um de nós humanos tem algo a transmitir a outros seres.
A observação e o estar presente abrem-nos ao que a vida tem para nos oferecer. Efetivamente, sinto que a vida nos pede que encontremos mais e que procuremos menos. Procuramos sucesso, aceitação, pertença, reconhecimento, o local perfeito para viver, a pessoa ideal para estar ao nosso lado… mas se nos deixarmos levar pelo que a vida nos comunica, com certeza mistérios nos serão revelados e encontraremos experiências nunca antes imaginadas.

Picasso disse eu não procuro, eu encontro. Essa é a possibilidade maior que o desenho nos dá, seguindo a intuição e a prática, a de encontrar novos universos, novas linhas, manchas, cores, formas, imagens, narrativas e contos.
É esse um dos meus desejos no desenho, ser capaz de trilhar um caminho de encontro, que o meu gps interno, a minha intuição, seja aquela que comanda e que a minha mente pouco interfira, pouco me
influencie em procurar por um desenho.
Por isso agora, me dirijo às mãos, este membro tão único e exclusivo dos humanos que se articula com a mente, mas que transcende a função de instrumento ou de uma obediência maquinal.
Distinguem-se por serem detentoras de uma mobilidade autónoma, capaz de nos fazer demonstrar e sentir força e, em simultâneo, de nos mostrarmos, através delas, sensivéis e delicados.
São talvez o membro que mais traduz os sussuros que cada um de nós escuta, pois por elas passam sinais diversos e constrói-se uma relação de conhecimento em cada indivíduo, uma relação sensorial rica de
ligação com o mundo.
Por outra via, elas, de igual modo, possuem atributos estruturantes de cada personalidade e revelam a essência de cada um de nós.
O desenho, a primeira escrita na infância de cada indivíduo, quando movido pela procura é o primeiro a pedir à mão o domínio de movimentos finos, a intencionalidade da forma ou a ocupação concetual
do espaço. Por sua vez, quando movido pelo encontro pede à mão o registo livre e a expressão mais autêntica de um Ser.
Que as minhas mãos estejam livres para os encontros, em compromisso com os sussuros das aves.
Maia, 18 de agosto de 2022